terça-feira, 15 de julho de 2014

Ventre Lar

manhãs cinzentas, aquelas em que minha mãe rezava
lúgubre cancro, enfeitado de cruzes
e o suplício a tal divindade que nunca respondia
em salvação.
nessas manhãs, só eu a ouvia
pobre mãe, lúgubre cancro, esperança no além
e só eu respondia.

nessas manhãs, eu era deus.
nessas manhãs, pensava, deus ficou a dormir
e um mundo inteiro não pode ficar sem deus
durante uma manhã.
nessas manhãs, eu era deus.

mais tarde, depois de deus ter acordado numa manhã
e ter levado minha mãe e seu lúgubre cancro,
descobri que deus só existe no tempo limite
que é dizer o limite de tempo dum homem no limite
de não existir tempo nem vontade que o haja
e suplicar por maior.

nessa manhã, eu não fui deus.
nessa manhã, pensei, ninguém rezou
porque o céu não está cinzento, e todo o homem sorri porque o sol canta.
nessa manhã, ninguém foi deus.

- foste, mam'Ana, ventre lar que se tornou uma nuvem negra em céu limpo.