domingo, 7 de setembro de 2014

Bang Bang

Recordo-me, pouco havia a dizer. Não que as palavras não tivessem valor merecedor do momento; palavras têm o valor de palavras, apenas. Alguém discutia por entre goles de copos cheios pela metade, soluços perdidos na pauta, a bengala daqueles pobres descrentes que acreditam em acreditar ter encontrado algures o sentido disto, da vida, saiba-se lá do que se trata. Não, não se falava dum deus qualquer ou de religião; ainda não estavam nem tão bêbados, nem tão pobres. Falava-se de amor, a tristeza mais feliz do animal e, em raras excepções, do Homem. O amor é isto!, só pode ser isto!, diziam cheios de uma paixão hidratada por mais um gole. O amor é servido nas mais variadas formas!, se sofres é amor, se se se... E a discussão continuava cada vez mais hipotecada por ideais absolutos, ou proclamados como tal, possivelmente por donos de relações desamoradas, hipotecadas pela falta do amor como valor, e não como um preço. Se pudesse teria mandado uns quantos irem-se foder... Com amor, claro... Mas recordo-me, pouco havia a dizer. Discutir pelo amor ou, na pior das hipóteses possíveis e impossíveis, discutir o próprio amor em carne e osso só o faria menos amor, menos verdadeiro, como se uma defesa dum respectivo partido político se tratasse, crendo eu mais na veracidade da segunda. Não há nada a dizer, muito menos a acrescentar sobre ele. Se é amor deixem-no ser. Não pensem; se o amor não pensa, de nada servirá pensar por ele. No entanto, nem o ruído do silêncio era expulso pela minha boca: respirava fundo, sossegado por um cigarro. Um pouco mais à frente, um casal dançava. Parecia-me, sem sarcasmo, uma dança embalada por uma daquelas cantigas dramáticas dos romancistas do povo: apaixonados, marcando a palpitação do companheiro disfarçando a ebulição corporal enquanto as mãos, servas da anca rainha, a desejavam em segredo. Talvez, pensei, alguém descubra uma doença terminal a meio da malha e se afastem durante muito tempo, demasiado tempo para o que a saudade animal aguenta - apenas essa é real - mas, no entanto, por obra do espírito santo ou dum Sparks qualquer, acabem por ficar juntos, acabem por ser felizes para sempre. O amor como um preço?, rafeiros de merda. Perceberam que os observava, olharam-me com o desprezo dum daqueles dealers que me aborda no Rossio, com dois caldos Knorr na mão, anunciando o falso pecado ao verdadeiro pecador. Um diabo que se preze terá sempre de saber quantos demónios vivem no seu inferno, rafeiros de merda. Desviei o olhar, perdeu-se-me o interesse. Afastaram-se, pagaram a conta. Provavelmente a figura masculina levaria a sua companheira a casa e acabaria por subir, com uma desculpa em tom de desafio alimentado por ambos. Recordo-me, levantei-me depois deles e saí também. Talvez tenha ido com alguém para casa também. Do amor, até hoje, não me recordo nada.