domingo, 5 de outubro de 2014

Avant-garde

escrever-me com as cores dos teus quadros de pop-art não se avizinha breve, talvez e só porque provavelmente decoram o fundo do espelho que tens ao fundo do corredor, e é nele onde te pintas numa correria repetidamente como te é belo sentir na arte. e, ainda assim, contrastando com o vermelho sangue que te reanima os lábios em tão pouco tempo, é tudo tão lento.

não fosse o pós-modernismo que te é querido, mais ninguém me ensinaria que o chá se bebe com o nariz, ao longe, ainda antes de ferver, no momento em que escolhes especiarias a teu gosto para te aromatizarem a vida. não a vida quotidiana, aquela que todos vivem a conta-gotas esperando afogarem-se nela mais tarde ou mais cedo, não - a vida de óculos postos no teu rosto sobre a cama, fixando não realmente o tecto, sem tempo.
só espaço:

uma dúzia de meninas banhando-te o corpo em espuma de ouro
massajando-te os pés que não precisariam de pisar chão algum.
tivessem elas os olhos vendados e reconheceriam-te princesa, pelo cheiro;
a tua pele não encontrariam em mais nenhuma senhora de si.

se pudesse, ficarias assim sempre, calmamente, até que a primeira chuva do inverno molhasse os símbolos que com pregadores entregaste ao estendal:

para que não provasses nunca a mesma água,
para que não provasses nunca a mesma vida.

e as tuas mãos molhadas gritando...