sábado, 20 de dezembro de 2014

Actividades Para Anormais

hoje sei que escrevo
para passar o tempo
ou para o tempo
não passar por mim
(será esta confusão minha
sujeita a critérios distintos,
diferenciando o relógio
ou o pulso).
pouco mais serei do que
isto: um ser, e todo ele
é pouco.
não sei se corra vivo
para a própria morte,
triste biologia metafísica,
ou se rasteje morto
para a vida que dizem minha
como um crente implorando
à sua concepção de deus
para não viver um segundo
inferno.
tudo o que sei é que
escrevo, para e contra o tempo,
meu triste contratempo.
o anúncio do fim
recorda-me comovido
o início do findado,
lembrando que por acaso
tudo acontece, e não é
tão breve, como o tempo,
porque sinto e penso,
e sobrevivem horas solitárias
dentro de mim, quando
nada acontece.
encontro-me vezes
demasiadas, quase sempre
(o tempo exige quase sempre
um quase, antes do sempre;
só o nunca é independente
de qualquer oposição)
escrevendo sobre o porquê
de escrever.
hoje sei que escrevo,
provavelmente sobre escrever
o porquê de escrever,
e conforme o tempo passa
sobre mim, não passa
sobre as palavras que hoje
escrevo sobre o tempo,
que ainda assim serão
sobre mim. é este
momento, o eterno:
não passou.