quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Introdução ao amor redondo - sem conclusão

enojavam-me as ideias, em geral – para que serviam?
mas esta, em particular, criava em mim uma fadiga
tão imensa e tão crónica de viver, e nem a vida seria
tão imensa nem tão crónica.

enojavam-me também os poetas – para que serviam?
imaginava-os autoritários, donos da razão que até hoje
não foi certa nem errada em lugar algum deste mundo:
foi ela, apenas e a passos, uma meia-dúzia de ideias
com as quais muita gente
concordou.

[Riscar verdades universais. Eles não nos consultaram.]

e as ideias, a mim, enojavam-me – para que serviam?
mas esta, em particular, por vezes ia-se embora na pré-
-sensação de estar vivo,
que fica entre o acordar e o acender
o primeiro cigarro, e ouvia uma voz,
muito
ao
longe,
que pintava com palavras
a não-ideia de nós:

falava-se tanto de amor
que quase parecia
para sempre.

sobre o perdão
selavam
o pacto
para nunca mais
o solicitarem.

as flores não eram bonitas apenas quando eram oferecidas.
o café da manhã não importava realmente
se estava morno.

mas, findando o dia, regressava a casa
sozinho.

e as ideias, também elas, regressavam
sempre.

[Olhos e vozes. Como um peixe num aquário.]

e as ideias, a mim, enojavam-me – para que serviam?
mas habituar-me-ia, eventualmente
todos os dias
antes de apagar o último cigarro da noite
e apagar-me de mim. como se
a mais bela repetição
jamais precisasse de conhecer
um outro amor ou lugar igual
que não o
à primeira vista.

[Não morrerei cristão o suficiente para poder dizer
Matem-me, eu não tenho uma bala.]


e talvez pudesse
esquecer todos aqueles monstros que abrigamos
em casa, e escondemos com um sorriso atrás
das fotografias sem nunca saírem do hall de entrada
a cheirar a tempo queimado,
cada vez mais perto.
mas nunca poderia
fugir; fossem eles
abandonados sem passado na fossa
das marianas,
não seria suficientemente longe
e toda a pressão existente
faria explodir o meu crânio.

seria essa, pelo menos, a minha ideia…

e as ideias, a mim, ainda me enojam – para que servem?